A despedida emocionante da Atriz Rogéria

Aos 74 anos, morre Rogéria, a travesti mais famosa do Brasil

Rogéria morreu na noite da última segunda-feira, 4. Amigos exaltaram sua alegria e pioneirismo nos palcos, na TV e no cinema.

A atriz e travesti Rogéria morreu na noite desta segunda-feira (04), após dar entrada mais uma vez em um hospital no bairro da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro para tratar uma infecção urinária. A notícia foi confirmada pelo empresário da artista Alexandro Haddad.

Em julho, Rogéria foi internada no CTI da Clínica Pinheiro Machado, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio para cuidar do mesmo problema. Na ocasião, Ela foi encaminhada para o local, após sentir fortes dores nas costas. Após uma melhora, ela recebeu alta mas voltou ao hospital, mais uma vez, duas semana depois.

O corpo da atriz será velado no teatro João Caetano, no Centro do Rio, a partir das 11h, desta terça-feira (05). Nos primeiros momentos a entrada será restrita apenas a amigos e familiares, sendo aberto ao público a partir das 13h. O enterro será na quarta (06), na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro, onde ela nasceu.

Nascida em 1943, Rogéria foi maquiadora na extinta TV Rio, e logo se tornou um ícone da comunidade LGBT ao atuar como jurada em vários programas de auditório como os de Chacrinha. Um dos seus últimos trabalhos na TV foi na novela Babilônia, da TV Globo.

Em Divinas Divas (2016), documentário dirigido por Leandra Leal, Rogéria dá uma aula sobre a responsabilidade de subir num palco e se assumir artista. Ao lado das outras meninas da Cinelândia, ela destacou que, na década de 1960, somente o fato de ter travesti em cena já chamava público para os teatros. Aquele reconhecimento pela curiosidade, entretanto, não era suficiente para a atriz. Ela queria cantar bem, atuar com primor e dançar divinamente. Rogéria nunca se conformou em ser celebridade, o seu foco era uma cena bem feita e assim foi, até a última segunda-feira, 4, quando morreu, após não resistir à infecção generalizada.

Uma das primeiras transformistas a conquistar destaque na TV, ela não fez questão de ser só uma. Foi Astolfo Barroso Pinto quando quis, passeava entre gêneros num discurso análogo ao que a cantora maranhense Pabllo Vittar tem hoje. Naquela época, porém, não havia uma “geração tombamento” como público fiel e Rogéria nem sempre era aplaudida por “lacrar”. Com talento e força, foi “o” e “a” com pioneirismo e coragem para ser livre em tempos de ditadura militar.

Tive a sorte de vê-la em cena uma única vez. E hoje faz exatamente um ano dessa “aula” sobre ser genuinamente artista. Naquela terça-feira, véspera de feriado, o Teatro Rival, no Rio de Janeiro, estava lotado para a estreia do espetáculo Rival Rebolado, projeto de teatro de revista que “celebra o desbunde”. Apesar de, nas aparições públicas e entrevistas, a artista evitar exposição da vida íntima, sob a luz do holofote, o o desbunde ganhava espaço.

Naquela noite, Rogéria fez tudo o que sabia fazer, estava plena. Até desceu para a plateia com microfone à mão e jeito debochado. Interrompendo o clima de show, deixou que o público fizesse perguntas. Eu levantei a mão, sorrindo. Ela olhou para mim, mas não sorriu. Rogéria me entregou o microfone e eu perguntei para ela quais eram as diferenças entre os desafios de uma travesti na ditadura e os de hoje. Aí finalmente ela sorriu e explicou que “não mudou nada”. E disse mais: tinha um agravante, pois, apesar das censuras de cinco décadas atrás, muitas “bonecas” conseguiam trabalhar como artistas, o que, contraditoriamente, se tornou mais difícil agora. Mesmo não militando nos moldes que conhecemos hoje na internet, aquela artista tinha consciência crítica dos nossos tempos.

Outra coincidência: a transformista morreu na última segunda, exatamente no dia que sua personagem, Ninete, apareceu na novela Tieta (1989), reprisada no Canal Viva. Há quase 30 anos, a personagem já levantava discussões sobre gênero na TV aberta, a exemplo da clássica cena em que Ninete “se revela Valdemar” numa briga de bar. Se hoje o público consegue amar o transhomem Ivan em A Força do Querer, muito se deve a presença contínua de nomes como Rogéria no imaginário nacional.

Ela quis ser a “travesti da família brasileira” e, de fato, fez jus ao posto. Não relaciono isso a uma postura conservadora, mas, sim, como uma vontade de viver por completo tudo o que queria. Ela foi menino, foi travesti e quis ser senhora — e uma “senhora de respeito”. Autoconsciente da artista que era, Rogéria se sabia um tesouro vivo da nossa cultura. Ela entra agora para a história como a travesti tradicional brasileira.

Entrevista com Rogéria -Em Divinas Divas-

 

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