O Ladrão que Roubou o Brasil e morreu IMPUNE

Henry Wickham, o Ladrão Britânico que prejudicou o Brasil

As sementes roubadas por Henry Wickham causaram a ruína 
da econômica do Amazônia e mudaram o Destino do Brasil

Entre 1880 e 1913, a Amazônia viveu sua belle époque. Em 1907, o consumo per capita de diamantes em Manaus, a capital do Amazonas, era o mais alto do mundo. Lá, o custo de vida chegava a ser quatro vezes mais alto que o de Londres ou Nova York. Manaus foi a primeira cidade da América do Sul a ter uma rede de bondes elétricos. Teve também o maior porto flutuante do mundo, com recorde de movimentação de embarcações. Em 1906, pelas águas do Rio Negro escoaram riquezas suficientes para pagar 40% da dívida anual do Brasil. Um símbolo desse período de ouro ainda pode ser encontrado em Manaus: o Teatro Amazonas, inspirado na Ópera Garnier de Paris. A razão dessa prosperidade era a seringueira Hevea brasiliensis, dispersa na Floresta Amazônica. Ela produzia uma borracha de qualidade única no mundo e tão essencial para o transporte, a comunicação e a indústria da época como o petróleo é hoje em dia. Em 1913, esse mundo de riqueza sofreu um golpe mortal, quando a borracha extraída de seringueiras plantadas por britânicos no Sudoeste da Ásia invadiu o mercado, com a mesma qualidade e preços mais baixos.

Wickham roudou 70 mil sementes de seringueira em 50 cestos

Era madrugada quando um homem chegou ao Jardim Botânico de Kew, em Londres, à procura de seu diretor. Ele trazia uma carga roubada: 70 mil sementes de seringueira. Foi graças a essa encomenda surrupiada do Brasil que as colônias inglesas na Ásia tornaram-se as maiores produtoras de látex do mundo no início do século passado, enterrando o milionário ciclo da borracha na Amazônia. O ladrão se chamava Henry Wickham (1846-1926), um aventureiro inglês que morou em Santarém, Pará. Autor de um dos primeiros casos de biopirataria da história, sua trajetória de homem visionário, destemido e bastante teimoso é narrada com neutralidade – mas não sem paixão – pelo jornalista americano Joe Jackson no livro “O Ladrão no Fim do Mundo”

O boom da borracha foi uma decorrência do crescimento urbano e dos principais meios de locomoção individuais – a bicicleta e o automóvel. Tentativas de se levar sementes da chamada Pará Fine (ou Hevea brasilienses), de onde se extraía o melhor látex do mundo, já haviam sido feitas. Outro espertinho inglês tentou contrabandeá-las dentro de dois crocodilos empalhados, mas todas chegaram secas à Europa. Wickham foi mais feliz em seu golpe. O sucesso de seu roubo não se deveu apenas à esperteza com que despistou a alfândega brasileira – ele argumentou que estava levando “espécies botânicas extremamente delicadas” para a rainha Vitória. Graças ao que aprendeu da população nativa, sabia onde buscar as sementes, qual a melhor época, e como evitar o seu bolor e a germinação.

De posse dos diários de Violet, mulher de Wickham, Jackson reconstitui em detalhes toda a operação do roubo – o aventureiro teria acondicionado os grãos em 50 cestos indígenas e forrado o conjunto com folhas de bananeira para evitar a formação de uma camada de cianeto. A embarcação da carga foi outro lance de suspense: a sorte colocou diante de Wickham um navio novinho, ainda na segunda viagem de Liverpool a Manaus, o SS Amazonas, cujo capitão se encontrava desolado por ter sido roubado e abandonado pela tripulação – a tramoia, embalada em gesto patriótico, veio a calhar. Apesar dos serviços à rainha, Wickham se viu frustrado em suas ambições de coordenar as plantações de borracha nas colônias asiáticas. Fora barrado pelo diretor do Jardim Botânico, que o julgava um picareta. Recebeu apenas 700 libras pelo feito e vagou pelo mundo como um condenado até ser abandonado pela esposa em Nova Guiné, numa região habitada por canibais. Três décadas e meia depois, quando as árvores nascidas das 2.900 sementes germinadas passaram a produzir a rica seiva, ele conseguiu, enfim, provar que estava certo. E virou cavaleiro da rainha, sir Wickham.

 

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